29/11/05

SANDUÍCHE DE PÃO COM OVO

Parece que foi há tanto tempo, que a lembrança dessas coisas me vem encoberta por uma certa névoa. Não traz amargura, dor ou sofrimento, muito embora às vezes - quase sempre, pra dizer a verdade - traga-me lágrimas. Entretanto, o sentimento não é negativo, pois, embora preferisse, claro, nunca ter passado por tudo aquilo, devo reconhecer que meu caráter e personalidade foi forjado sob essas circunstâncias. São lágrimas, talvez, de uma tosca alegria de ter passado por tantas dificuldades, mas, ao invés de por elas ser destruído, usá-las como fator de propulsão, um motivador para vencer.
.
Foi na solidão, sem carinho de pai ou mãe, que descobri que só tinha a mim mesmo e, por isso, não poderia viver e crescer de forma irresponsável; Foi na humilhação da mais profunda pobreza que entendi que apenas com muita luta, muito esforço, poderia reverter toda aquela situação; Foi sofrendo pelos erros dos outros que aprendi que, embora tendo sua herança genética, não precisava repetir seus erros: posso e devo ser um bom pai, marido e um profissional bem sucedido - não sou igual a ninguém. Também descobri que as adversidades não nos matam tão facilmente, que tudo depende da forma como nos posicionamos diante dos problemas: quanto mais fracos somos, maiores eles ficam. Tive a certeza de que a dignidade humana não tem preço, razão pela qual jamais deveria vender minhas convicções, pois, eu poderia até morrer de fome, sem ter qualquer valor para essa sociedade capitalista, mas o que importava de verdade era a voz da minha consciência: isso não tinha preço, ninguém roubaria.
.
Lembro-me de um dia, que ficou indelevelmente marcado em minha mente, o dia do sanduíche de pão com ovo. Eu estudava de manhã, e quase sempre saía sem comer nada, ficando na dependência da merenda servida pela escola. Mas um dia, com algumas moedas, fui à mercearia do seu Louro, na esquina, e comprei um pão e um ovo. Fiz um belo sanduíche, intencionando levá-lo para, na hora do recreio, viver a inédita experiência de poder lanchar algo trazido de casa. O ovo ficou meio passado, mas estava legal. Vesti a farda, penteei os cabelos e, antes de sair, fui por meu sanduíche na bolsa. Aqui, algo aconteceu, não sei bem explicar: um minuto depois, percebi que havia devorado completamente aquele que seria meu lanche de recreio. Mas não fiquei triste, pois ao menos tinha vivido a rara alegria de tomar café da manhã.
.
NILDO FEREIRA

21/11/05

AQUELE EU QUE EU NÃO CONHECIA


Sempre tive a convicção de que, se aqueles com quem convivo parassem para, com humildade e o coração aberto, ouvir o que eu e os outros pensávamos a seu respeito, em particular daquilo em que deveriam mudar, eles se tornariam pessoas muito melhores.

Quanto ao meu julgamento pessoal, confesso sempre ter sido mais complacente comigo mesmo. Não tenho um gênio descontrolado, apenas sou um pouco temperamental; Não sou muito teimoso, só um pouco insistente; não estou gordo, apenas um pouco acima do peso. Esses são meus defeitos – Ninguém é perfeito! Todos perdoáveis, possíveis de serem ignorados, afinal de contas tenho qualidades tão interessantes, como ser muito bom amigo, muito humilde, muito compreensivo, muito esforçado, muito trabalhador, muito verdadeiro e tenho os olhos muito bonitos, etc., etc., etc.

Até que um dia, não sei se em um sonho, um delírio, uma visão ou o que quer que tenha sido, ao dobrar de uma esquina, deparei-me com um sujeito muito parecido comigo. Não recordava de onde ou como, mas eu o conhecia muito bem, e ele também me conhecia. Aproximou-se de mim, sorrindo amigavelmente, e já foi indagando:
- Diga com sinceridade: o que pensa a meu respeito?

Olhei em seus olhos, refleti e retruquei:
- Você é uma ótima pessoa. Mas... precisa mudar algumas coisas, pois, do contrário, pode comprometer gravemente sua convivência com os outros, inclusive com quem te ama. Estou falando desse seu temperamento horrível. Tudo lhe irrita, faz perder as estribeiras. Leva a mal não, mas, às vezes, parece um cavalo dando coices! Sinceramente. Vê se se controla mais. Não pode ser assim... Isso é ridículo!

Já ia dando por encerrada minha prédica quando emendei:
- Ah! Aproveita e faz um regime pra diminuir essa pança! Tá gordo demais... Só isso...
O cara me sorriu novamente e, aqui, pareceu que o encanto se desfez. Achei-me diante do espelho. Isso mesmo. Aquele sujeito era eu.

É muito mais fácil ver e condenar as falhas alheias que as nossas, que sempre parecem menores e perdoáveis. Assim eu ajo, assim o outro age, assim agimos todos, juízes do mundo, advogados de nós mesmos. Quem dera julgássemos os outros com a mesma medida com que nos julgamos. Descobriríamos que eles não são tão maus quanto às vezes pintamos, e nos conheceríamos melhor, vendo que não somos tão bons quanto, pretensiosamente, acreditamos ser.
NILDO FERREIRA