27/01/06

TAMPINHAS DE GARRAFA


Vivenciei minha infância em um mundo difícil de suportar, na amargura de um lar esfacelado, de pobreza e humilhação. Tinha poucos colegas, muita tristeza e um monte de sonhos silenciosos. E foi em sonhos que construí um mundo paralelo, só meu, sem tantas tribulações. Como nunca gostei de soltar pipa, jogar pião nem bola de gude, como a maioria das crianças da minha rua, meu maior prazer era jogar bola, mas nem sempre podia ir ao campinho, ou porque minha mãe não deixava, ou porque a turma não queria mesmo minha presença, principalmente pelo fato de eu ser um péssimo jogador.
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Gostava também do jogo de botão, mas não tinha dinheiro para comprar um. Daí, inventei uma espécie de jogo de botão com tampinhas de garrafa. Ah! Aquilo seria um enorme escape em minha vida! Passava horas a fio sozinho. Usava, como campo, um lastro arrancado de uma mesa velha, dois times de tampinhas diferentes, conforme a bebida, e um botão de camisa para fazer às vezes da bola. Mas não servia qualquer botão, tinha que ser um que tivesse pelo menos uma das bases "barriguda", para a "bola" poder subir nos "chutes". Tinha duas traves de jogo de botão de verdade, que achei em algum lugar. Nesse futebol, eu era todos os jogadores, o juiz, o técnico, a torcida, e – o que eu mais gostava – o narrador; criava as regras, gastava um tempão elaborando as tabelas dos campeonatos, listando as escalações dos times e, enfim, jogando! Tentava ser justo, imparcial, mas nem sempre conseguia, de forma que o Corinthians vencia com muito mais freqüência do que na vida real, e o Campinense Clube chegou até a ser campeão brasileiro, vejam só!
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Mas, fosse como fosse, o que importa é que passei muitos, muitos anos de minha vida jogando fichobol – nome que criei, aglutinando as palavras ficha, que era um termo com o qual também se designava, à época, tampas de garrafa, e futebol. A coisa se tornou uma paixão tão grande que, mesmo quando a professora Inácia me deu dois times de botão, não abandonei o fichobol. Tinha a impressão de que passaria a vida jogando aquilo. Quando estava só, quando a televisão não estava funcionando, o que acontecia quase sempre, quando a realidade apertava demais, eu ia para o quarto, punha o lastro da mesa sobre a cama, alinhava minhas tampinhas, marcava o tempo e começava meu jogo, narrando cada lance, tecendo os comentários e, claro, dando enormes gritos de gol, fugindo, assim, para o meu mundo.
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Sinceramente, não sei quando abandonei definitivamente o fichobol, não sei como ou qual foi meu último jogo, mas a verdade é que tenho certeza de que ainda sei bem como segurar a tampinha e dar aqueles chutes, de modo que, muitas vezes, quando a solidão e a tristeza apertam o peito hoje crescido, assim como apertava aquele peito menino, que não entendia que sentimento era aquele, ainda tenho vontade de pegar minhas tampinhas, dar as costas para tudo e todos, e voltar a jogar fichobol. Entretanto, agora, esse direito não tenho mais, a final de contas, não tem cabimento um homem brincando com tampinhas de garrafa! Assim, só resta deitar, fechar os olhos e sonhar, ou com um amanhã menos amargo, ou com as partidas que jamais poderei esquecer.
NILDO FERREIRA

24/01/06

CANSADO

São seis horas da manhã
O dia está apenas começando
E eu já estou cansado
É segunda-feira
Uma nova semana se inicia
E eu já estou cansado
Hoje é o dia primeiro
Mais um mês nasce
E eu já estou cansado
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A vida dá voltas
E volta ao mesmo lugar
Cada dia um recomeço
Do fim que está pra chegar
Lutamos, sonhamos, queremos
Conquistamos - ou não - e morremos
Nada vale nada e tudo
É finito, pífio, enganoso
Ser ou não ser não é mais
Que uma simples questão de momento
Mas, na verdade, na verdade
Tudo é apenas fadiga
E plena aflição de espírito.
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Já basta!
Apenas comecei a escrever
E já estou cansado.

NILDO FERREIRA

20/01/06

O BANHEIRO DA FACULDADE E A SITUAÇÃO DO BRASIL


UMA ANÁLISE FISIOLÓGICA DE NOSSA PROBLEMÁTICA

Um dia destes, enquanto aguardava o começo da aula, estava eu distraidamente refletindo sobre a problemática política, social e econômica do País, quando me senti pressionado pelas irresistíveis forças uretéricas a dirigir-me, com toda a urgência, ao banheiro. Lá, enquanto aliviava a alma - pois aliviar a bexiga alivia a alma - os sentidos do olfato e da visão, automaticamente, dispuseram-se a uma avaliação do ambiente: paredes caindo aos pedaços, cheias de inscrições indecorosas - à moda da gurizada de quinta série - descarga quebrada, vaso sem tampa, imundo, chão igualmente podre, um aroma insuportável, porta sem ferrolho... Enfim, o caos!
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Ao recompor as vestes, em um relance, lembrei-me de que, até pouco, estava ponderando sobre a crise nacional. Sorri. Puxei a porta, abri a torneira e, então, compreendi: Não estive refletindo sobre aspectos tão distintos assim. Muito pelo contrário, podemos até fazer com o tema uma bela alegoria.
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O banheiro, em si, pode significar a Nação: maltratada, com uma estrutura física e tecnológica obsoleta e sucateada, desesperadamente carecendo de solução para a falta de eficientes atendimentos em setores fundamentais, como saúde (quem se atreve a sentar no vaso?), segurança (e se alguém abre a porta naquela hora?) e educação (riscar parede de banheiro é uma prova indiscutível de má educação). Essas necessidades fundamentais podem ser também representadas em nossa parábola pela falta de papel higiênico. Assim como esses serviços funcionam de forma precária no Brasil, nossos universitários têm que improvisar na hora da limpeza das "partes". Muito se vê folha de caderno, apostila, papel de março de cigarro e até, na época junina, sabugo de milho (???).
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O vaso sanitário faz as vezes do Estado: deveria ser limpo, bem cuidado, de boa aparência, para uso (não abuso!) de todos. Mas, ao invés disso, tem algo de podre em seu interior. E a descarga, que simboliza a Justiça, está lá, mas não funciona: está quebrada, por um sistema legal unilateral, de forma que não tem como limpar toda a sujeirada.
Bem, poderíamos seguir nesse processo comparatório, a partir de outros componentes do mictório, mas, convenhamos, já basta. Seria prolixo e nojento demais.
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Lembremos apenas que, assim como o Brasil, quando alguém (quem?) finalmente aparece para consertar alguma coisa no nosso banheiro, logo surge uma cambada de trogloditas-debilóides-acadêmicos com titica na cabeça para destruir. Continuem as coisas como vão e, assim como figurava à porta de um de nossos banheiros outro dia uma placa, ainda veremos sobre o Brasil o aviso: INTERDITADO. E quem não puder conter-se que vá procurar uma moita.
NILDO FERREIRA