14/10/06

Meu avô comunista


Tenho poucas lembranças do meu avô materno, que morreu quando eu ainda era muito pequeno. Recordo-me apenas dele chegando em casa, de terno e valise, e o casal de cachorros pequenês indo recepcioná-lo já no portão.
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Como desde sempre fui extremamente resignado nesse assunto de relacionamento familiar, não acompanhava Biana e Duque – esses eram os nomes dos cães. O velho retornava aos cachorros cada carinho recebido. Para mim, um rápido afago no cabelo. Para a minha avó e meus tios, nem se quer boa tarde. Ele tinha lá suas razões para isso. Com certeza, naquela casa, quem mais o queria bem eram os cachorros. E a recíproca era indubitavelmente verdadeira.
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Aliás, penso que a festa que os bichinhos faziam quando meu avô chegava era também de alívio, qual a dizer: “Chegou nosso protetor”. Isso porque minha vó, mulher amarga, mesquinha, passava os dias a quebrar chicotes de galhos de goiabeira no lombo dos infelizes. Coitados, mal sabiam a sorte que breve os aguardava.
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Certa noite, enquanto conversava com um vizinho, vô foi atacado por um AVC. Passou alguns dias no hospital e morreu. Desde então, aquela casa, sempre abundante de conversa e comida para quem quer que chegasse, amigo ou estranho, família ou agregado, tornou-se um sepulcro de pessoas vivas. Restaram lá minha avó e um casal de filhos quarentões que nunca tomaram rumo na vida. Os vizinhos deixaram de ir lá. Os familiares também. Eu nunca quis envolvimento com nenhum deles. Gente complicada, sem educação, só vive de briga, uma verdadeira mundiça, como bem define a expressão nordestina.
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Biana e Duque viveram dias de horror, sendo cruelmente espancados todos os dias. Ainda lembro que, às tardes, pela hora que o velho chegava em casa, eles iam para o portão, olhando de um lado para o outro, ora abanando o rabo, ante qualquer movimento na rua, como a pensar que era o dono querido, ora pondo o rabo entre as pernas: decepção. Finalmente a velha deu os cachorros. Duque foi para a cidade de Pocinhos, e Biana mudou-se para uma casa no bairro das Malvinas. Melhor assim.
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Pois bem, não falei que meu avô se chamava José Antônio Euflausino, e que era presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município.
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Passados tantos anos, estava eu elaborando um material anti-Lula, como a arte ao lado, quando chega um senhor que, conforme já sei, é do MST, e um dos líderes de um assentamento na cidade. O homem observa a arte impressa com os dizeres: “Lula tem as mãos sujas”, que ele lê a meia voz. Percebo que não gosta nadinha disso, mas não diz nada.

- Você pode digitar um ofício para mim? – pergunta.
- Posso, com certeza. Dê-me as informações, por favor – respondo.

No meio do ofício, que era um convite ao secretário de saúde do município para fazer uma visita ao assentamento, quando pergunto pela localidade, ele responde:

- Fazenda Logradouro, proximidades do Sítio Lucas, assentamento José Antônio Euflausino.

Tive vontade de rir da coincidência. Quando falei para ele que o tal era meu avô, não fez qualquer cara de espanto, apenas me pediu uma foto do velho para colocar lá na administração do assentamento. Terminei o ofício, prometi a foto, e ele foi-se agradecido. Mas fiquei imaginando o que deve ter saído pensando aquele homem, no mínimo que eu era uma ovelha negra, que se meu avô tivesse vivo morreria de desgosto por ter um neto anti-esquerdista... Essas coisas.
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Não sei como seria esse relacionamento com o velho Zé Flosino, como costumavam chamá-lo. Acho que seria distante, sem muito envolvimento, como costuma ser com toda a minha família. Mas, é divertido saber que, aqui, meu avô é reconhecido como um modelo entre esses movimentos políticos, cheios de ideologias comunistas, disfarçados de movimentos sociais. É muito divertido.
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Até porque Zé Flosino era um autêntico comunista: presidente do sindicato, sempre incentivando a luta de classes e, ao mesmo tempo, dono de cinco imóveis na mesma rua, dentre outras coisas mais que, antes que algum leitor quede-se a imaginar que este pobre estudante herdou alguma coisa, saiba logo que a citada família mundiça já transformou quase tudo em dinheiro, e o dinheiro em feijão, e o feijão em merda há muito tempo.
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Lenildo Ferreira

01/10/06

Putaria na mídia. Literalmente

Já está virando moda. Primeiro foi o sucesso de Bruna Surfistinha, ex-prostituta (ex?) com seu livro O doce veneno do escorpião, cujo teor desconheço porque, claro, não li – afinal a vida passa rápido, e não vou perder algumas horas dela lendo fuleragem.
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Pois bem. Há alguns meses, assisti no sofrível Programa do Jô, em dois blocos, a entrevista com uma certa Vanessa de Oliveira. A rapariga – perdoem o trocadilho – também ex-prostituta (?), do mesmo modo virou escritora, com a obra O diário de Marise - A vida real de uma garota de programa. No livro, segundo consta de suas entrevistas, ela conta fatos surpreendentes, na verdade casos bizarros, vivenciados em seus mais de 5 mil programas !!!!
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Achei absurdo ser dado espaço àquela mulher para uma entrevista, inclusive de dois blocos, muito embora nada que aconteça no programa do confesso amoral Jô Soares possa mais surpreender. Mal sabia que, nos dias subseqüentes, ainda teria a oportunidade de, se quisesse, em outras várias entrevistas ouvir as narrativas das peripécias de Marise, um dos nomes de guerra de Vanessa.
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O pior de tudo é o modo como o assunto é tratado. A escritora (?), longe de ser uma mulher de tirar o juízo, conta que fazia de 5 a 8 programinhas por dia, a preços que variavam de R$ 80 até R$ 300, dependendo da personagem que encarnava. Isso dá um monte de mil reais por mês. Ora, as menininhas em casa, com o caráter moldado por Rebelde e Malhação, ansiosas por freqüentar mais os shoppings, enfrentando as dificuldades econômicas inatas ao brasileiro, pensa: “Descobri minha profissão”! De fato, na TV, a safada-escritora conta suas experiências como se tivesse uma grande lição de vida para dar, evitando sempre termos como prostituta, preferindo classificar a si e as colegas do ramo com o eufemismo de profissionais do sexo.
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Isso mostra como os canais de comunicação estão à cata de qualquer coisa que possa atiçar a curiosidade pútrida do povo, de modo que seja possível alavancar a audiência, sem dar qualquer importância para o fato de que a concessão do Estado para que empresas privadas explorem a comunicação determina que sua programação tenha interesse público. Isso mostra também o quanto a mentalidade perniciosa vigente nos principais núcleos de direção artística da grande mídia – que faz o mundo das celebridades ter o conhecido padrão de “tudo é normal”, à moda Daniela Cicarelli – vem impondo suas idéias a uma sociedade em avançado processo de degeneração. Isso mostra, também, porque essa mesma sociedade vem sendo tão complacente com as putarias de nossa política. Não se engane: tudo se relaciona, perdoem o novo trocadilho.
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Em tempo: Na internet, o livro da escritora Vanessa é vendido a R$ 20. Mas a livraria faz uma promoção na compra de O diário de Marise - A vida real de uma garota de programa + O doce veneno do escorpião, que fica ao preço de 34,20. Ninguém pode reclamar do preço, não dava nem para pagar um programa com as autoras.
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E assim vivenciamos o advento de uma nova classe da cultura literária brasileira, as prostitutas intelectuais escritoras. Com as bênçãos da alta mídia, vão terminar na Academia Brasileira de Letras, centro gregário de políticos, empresários, velhos caducos, magos viciados em drogas e, agora, putas.
Nildo Ferreira