19/11/06

Letras soturnas

O motivo

Era já alta noite. Daquelas noites sem lua ou estrelas, em que o céu apenas parece uma infinidade sombria de nada. Mas, ainda assim, de longe o reconheceu. Vinha de cabeça baixa, mãos nos bolsos, passos lentos, uma surrada roupa negra. Ao aproximar-se deu boa noite e mal foi respondido, apenas um quase imperceptível aceno com a cabeça. Observou que seu semblante estava extremamente abatido, que várias vezes naquele minuto em que estiveram parados, frente a frente em silêncio, tirara a mão esquerda do bolso e esfregava nervosamente sobre o queixo.

Quis, desde o início, indagar do que havia acontecido, qual o motivo de toda aquela alarmante angústia aparentada. Percebeu que, embora voltados para o chão de areia branca, seus olhos pareciam estar enxergando algo muito além, ou, talvez, muito mais profundo e distante. Mesmo assim, em nenhum momento ouviu menção de qualquer palavra, nem tampouco a mínima demonstração de que houvesse alguma lágrima a correr-lhe. Manteve-se o silêncio que, embora aparentemente constrangedor, parecia ser o melhor naquele instante. Apercebeu-se disso nos primeiros momentos.

Enquanto examinava, curioso, mesmo tenso, pressionado já não tanto pela preocupação quanto pela tal curiosidade humana, aquela figura a sua frente, recordava momentos vividos outrora, absolutamente distintos daquela situação. Ah! Momentos de vigoroso sonhar, de elaboração de planos, de animadas lutas pela realização desses sonhos e planos, das palavras convictas, firmes, objetivas, motivadoras. Nem de longe indicava ser a mesma pessoa, e veja-se que nem havia tanto tempo ante as duas realidades que presenciara.

O tempo, aliás, começava a fazer com que não suportasse mais ficar nessa situação de silêncio absoluto. Ia, enfim, inquirir sobre os acontecimentos. O que de tão grave ocorrera? Uma multidão de possibilidades lhe veio à cabeça, uma a uma analisou, algumas descartou, outras entendeu como prováveis. Por fim, não se agüentando mais, perguntou objetivamente:
- O que aconteceu?

Não houve resposta. Apenas o movimento de que ia embora, como se a pergunta tivesse provocado incômodo. Tornou a perguntar:
- Fala! O que aconteceu?

Realmente ia embora. Aquilo trouxe irritação: como podia ir assim? Sem uma explicação, sem uma resposta que fosse? Era já muita falta de consideração. Assim, agarrou-lhe o braço e repetiu, com voz dura e imperativa:
- O que aconteceu?
- Morreu, - foi a resposta que recebeu, com voz débil. Aquilo causou um susto.
- Como é???!! Morreu???!! Quem? Quem morreu? Quem morreu?

Novamente o silêncio. Novamente a irritação e a elevação do tom da voz. Os nervos lhe tremiam, as palavras tropeçavam. Quem haveria morrido? Aqueles instantes lhe trouxeram à mente os mais variados nomes... Quem teria sido a pobre alma que encontrava o fim de sua existência? Precisava de uma resposta!

- Fala!!! Quem morreu???!! Quem? Fala logo! Afinal, quem morreu, quem morreu, diz, quem??! Quem?
- A esperança...
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LeNildo Ferreira

03/11/06

FAO só espera reduzir fome no mundo pela metade em 2150


A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) anunciou nesta segunda, 30 de outubro, que o mundo não conseguirá cumprir a meta de diminuir a fome pela metade até 2015, e provavelmente deixará de atingi-la mesmo em 2030. "O número de pessoas famintas nos países em desenvolvimento deve diminuir dos atuais 777 milhões para cerca de 440 milhões em 2030", afirmou a FAO em um estudo chamado Agricultura mundial: rumo a 2015/2030.
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"Isso significa que a meta da Cúpula Mundial de Alimentação acertada em 1996, de diminuir pela metade o número de pessoas famintas em relação aos níveis verificados em 1990-92 (815 milhões), não será atingida nem mesmo em 2030", declarou o documento. Líderes mundiais reuniram-se em Roma em junho para renovar seu comprometimento com a promessa de 1996, mas poucos dirigentes de potências mundiais compareceram e alguns acusaram os países industrializados de mostrar indiferença em relação aos famintos.
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"A África subsaariana era motivo de grande preocupação porque o número de pessoas cronicamente subnutridas só cairá provavelmente dos atuais 194 milhões para 183 milhões em 2030", afirmou o órgão. Na pior crise de falta de alimentos do mundo, cerca de 13 milhões de pessoas de vários países do sul do continente sofrem com a fome devido aos efeitos de uma seca, de conflitos, da epidemia de aids e de erros de política econômica e administrativa.
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Segundo noticiou o Jornal Nacional, o diretor geral da FAO, Jacques Diouf, é pessimista quanto à solução do problema no Mundo. Segundo ele, se a tendência atual continuar, o objetivo de reduzir a fome pela metade só será alcançado em 2150. Isso mesmo: reduzir pela metade apenas em QUASE 150 ANOS.
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Só falta chegar para quem morre de fome hoje e perguntar: Dá para esperar uns 150 aninhos aí? Absurdo.